Ao conceder o habeas corpus requerido pelos deputados federais Alessandro Molon (PT-RJ), Protógenes Queiroz (PC do B-SP) e Doutor Aluizio (PV-RJ), o desembargador Cláudio Brandão, do Tribunal de Justiça do Rio, levou em conta, entre outros motivos, as condições indignas em que eram mantidos os 439 bombeiros presos por determinação do governador Sérgio Cabral. Sem qualquer planejamento ou condições de abrigar tantos presos, o Governo decidiu colocá-los em quadras de esportes, dormindo em colchonetes, como se fossem os desabrigados do Morro do Bumba ou dos deslizamentos na Região Serrana. Como passa a maior parte do seu mandato viajando ao exterior, gozando das mordomias que o cargo lhe permite, o governador está despreparado para enfrentar uma crise do tamanho da vivida pelo Corpo de Bombeiros. Para começar, os bombeiros e os guarda-vidas estavam submetidos ao comando do médico Sérgio Cortes, um ex-bombeiro que abandonou a carreira por conta dos baixos salários. Na hora da crise, o Secretário de Saúde e Defesa Civil, a quem o Corpo de Bombeiros era subordinado, estava nos Estados Unidos a passeio.
Como o governo tem víeis ditatorial, o Governador se negou a receber os líderes dos bombeiros e guarda-vidas, que queriam apenas discutir o salário miserável pago a eles (R$ 950,00), como ocorre com professores, médicos e outras categorias de servidores do Estado. No caso específico dos bombeiros, eles recebem o pior salário entre os colegas de todo o Brasil e, com o absurdo reajuste de 5,83% que será pago a partir de julho, o Estado do Rio subirá um posto e passará a ser o penúltimo pior salário pago a bombeiros e salva-vidas.
Ao invés da negociação, o governador preferiu o confronto, mandando o BOPE invadir o Quartel General do Corpo de Bombeiros, onde os 439 bombeiros estavam aquartelados, acompanhados de suas famílias, inclusive crianças, o que revela que a manifestação era pacífica. Cumprindo ordens do aprendiz de “Führer" tupiniquim, o BOPE invadiu o quartel com bombas e fuzis. O resultado imediato foram tres mortes, sendo as duas primeiras da mulher de um dos presos, que estava grávida e acabou perdendo o bebê, vindo a falecer também. A terceira vítima foi a mãe de um bombeiro, que não resistiu ao saber que seu filho fora preso como um perigoso bandido que colocava em risco a sociedade fluminense, segundo a versão do Governo.
A violência da ação do BOPE e a prisão dos 439 bombeiros e guarda-vidas, além de dois PMs, contrastou com a ação desenvolvida pelo Governo nas comunidades onde serão instaladas as UPPs. Segundo a versão divulgada pelo Secretário de Segurança do Estado, delegado da PF José Mariano Beltrame, a invasão de favelas com aviso prévio aos bandidos visa impedir o confronto e a morte de moradores que nada tem a ver com os traficantes e milicianos que controlam boa parte das favelas do Rio de Janeiro. É a mesma desculpa do comando do 15º Batalhão para manter distância do Complexo da Mangueirinha, um conjunto de favelas no bairro do Centenário e a pouco mais de um quilômetro do quartel da PM responsável pelo policiamento ostensivo em Duque de Caxias. Até agora, as operações da PM no Complexo da Mangueirinha tem sido pontuais, na maioria das vezes em represália à ação de bandidos que desafiam ostensivamente os PMs com ações durante o dia e o desfile de grupos armados pela Av. Manoel Reis, que liga a Av. Governador Leonel Brizola, antiga Rio-Petrópolis, ao complexo de favelas do Centenário.
A pergunta que não quer calar é a seguinte: a crise foi provocada pela incompetência da Secretaria de Saúde e Defesa Civil de ouvir os bombeiros, ou foi pura burrice do Governo ao deixar como está para ver (e pagar) como vai ficar?


