Lavar, passar, fazer comida, cuidar da casa, levar as crianças para escola e todos os detalhes diários da manutenção de uma estrutura familiar valem, em média, R$ 1,5 mil por mês, segundo três pesquisadores do Departamento de Economia da UFF Hildete Pereira de Melo, Claudio Monteiro Considera e Alberto Di Sabbato. Esse valor pode chegar a 12,76% do PIB, a soma de todas as riquezas produzidas no País durante um ano. Para chegar ao valor de R$ 1,5 mil, os professores consideraram o gasto médio com a remuneração da empregada doméstica.
Com base no estudo de 2001 a 2010, os professores defendem que essas atividades classificadas de “trabalho não remunerado e de invisibilidade" sejam incluídas no cálculo do Produto Interno Bruto (PIB) de cada país. A conclusão dos pesquisadores é que no Brasil os afazeres domésticos correspondem a cerca de 12,76% do PIB. Em 2004, por exemplo, representaram R$ 225,4 bilhões. Desse total, 82% (cerca de R$ 185 bilhões) foram gerados pelas atividades desempenhadas por mulheres. Se os afazeres domésticos forem contabilizados, revelarão o tamanho dos serviços criados pela mão de obra não remunerada.
- No mundo inteiro estão sendo feitos esses cálculos para ressaltar [o peso das atividades não remuneradas na economia]. A ideia é que, ao não se contar no PIB, esses afazeres são desvalorizados pela sociedade. Lembro que é dito que uma mulher que trabalha em casa não trabalha", disse Claudio Considera.Hildete Pereira de Melo, que é coordenadora de Programas de Educação e Cultura da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres, defende que a inclusão dos gastos de atividades não remuneradas no cálculo do PIB contribuirá para acabar com a “invisibilidade do trabalho doméstico". “A iniciativa mudaria a percepção da mulher na sociedade. Não é por nada que a sociedade ignora esse tipo de trabalho. Há um certo obscurantismo nessas tarefas. Milenarmente isso ocorre. Mensurar esses gastos é mudar a percepção, é empoderar as mulheres em relação ao trabalho não remunerado", disse Hildete Melo.
Claudio Considera e Hildete Melo ressaltam que, ao não avaliar as atividades domésticas das pessoas, reforça-se no país o conceito de “invisibilidade" que caracteriza esses afazeres e a “inferioridade do papel da mulher na sociedade". O estudo dos pesquisadores usou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os pesquisadores destacam também que, em vários países inclusive o Brasil, mulheres optam por ficar em casa e não trabalhar devido à baixa remuneração oferecida no mercado de trabalho. Os professores acrescentam que, nos países desenvolvidos, o valor pago para afazeres domésticos é elevado e nem sempre acessível.
Segundo dados do censo demográfico de 2010, referentes a famílias e domicílios, divulgados pelo IBGE, o número e famílias sob responsabilidade exclusiva das mulheres passou de 22,2% em 2000, para 37,3% em 2010. De acordo com os resultados, os domicílios ocupados por apenas uma família, 34,5% estavam em condição de responsabilidade compartilhada entre o casal na manutenção do lar, somando 15,8 milhões de casas. Nas famílias secundárias foi verificado que 53,5% são chefiadas somente por mulheres.Assim, nada mais justo do que reconhecer o papel importante desenvolvido pelas “donas de casa" incluindo a sua renda no calcula do PIB.


