A folgada vitória do candidato Nestor Vidal, com 68,62% dos votos válidos, enquanto seu principal adversário, Werner Saraiva, com apenas 22,82%, demonstra, de forma acachapante, o tamanho da revolta do eleitorado mageense diante dos desmandos que, ao longo de mais de 20 anos, vinha sendo praticados contra a indefesa e pacata população da cidade, por uma família que se considerava dona de tudo, basta ver as prisões de funcionários que pressionavam eleitores até em postos de saúde, ameaçando suspender o atendimento dos “rebeldes".
A situação da população do município faz lembrar o pesadelo que Magé viveu quando da II Revolta da Armada, liderada por Custódio de Melo e Saldanha da Gama, registrado no livro “Horrores de Magé", editado pela Mitra Diocesana de Petrópolis, em 2002, através da Repoarte Editora, cujo resumo, feito pelo pesquisador e professor Guilherme Peres, pode ser lido em “Pedaços da Nossa História), através do link http://pedacosdanossahistoria.blogspot.com/2008/05/pedaos-da-nossa-histria.html.
Na obra publicada pela Diocese, um repórter do “Jornal do Brasil" assim narrava a situação de Magé, no final do Século XIX: “Logo fui informado das cenas de verdadeiro vandalismo pelas tropas enviadas pelo governo e que se compunham de um contingente de cavalaria do Exército, de outro do 10º Batalhão de Infantaria da Guarda nacional da Capital Federal, de alguns praças da Brigada Policial da mesma capital e de uma ala do 82º da Guarda Nacional do Estado do Rio de Janeiro. Todas essas forças eram comandadas pelo Coronel Manuel Joaquim Goldophin, de cavalaria do Exército, e penetrou em Magé no dia 21 de fevereiro de 1894, às 08:00 do dia".
Em outro trecho, ele comenta: “É medonho, é horrível e parece incrível! Mas infelizmente é a pura verdade! O Sr. Goldophin deu estas ordens horríveis, em pleno final do século XIX, contra uma cidade brasileira, que não lhe resistira, e o esperava como salvado. Foi o maior e mais bárbaro atentado ocorrido neste grande, deste generoso, deste humano Brasil."
Finalizando, outro trecho da série de reportagens, narrava o repórter do Jornal do Brasil que esteve em Magé, denunciando as atrocidades sofridas pela indefesa cidade ao Brasil e ao Mundo. “Quando os soldados se entregavam à pilhagem desenfreada, durante todo o tempo de seu “comando", ele contemplava os destroços a que era reduzida as propriedades dos cidadãos, o pesar e a aflição destes, e como jactando do que ordenara, costuma dizer com a convicção de quem estivesse cumprindo uma ordem: “Eu vim destruir Magé! Essa é a minha missão!"
Essa parecia ser a “missão" da família que, até este domingo, mandava e desmandava em Magé: transformar uma das primeiras cidades (Vila Estrela") do Brasil colonial em terra arrasada. Assim, a tarefa do prefeito eleito, que ficará no cargo pouco mais de um ano, pois teremos novas eleições em outubro de 2012, é começar a reconstrução da cidade pela restauração dos serviços mínimos, como melhoria das condições de funcionamento de escolas e postos de saúde, recuperação da malha viária, recadastramento de imóveis com a finalidade de atualizar o cadastro e estabelecer novos parâmetros de cobrança de impostos e discutir com a população um Plano de Desenvolvimento Econômico e Social para o município.
Como profissional na gestão da área de saúde, o futuro prefeito poderia começar as mudanças pela recuperação dos postos e ampliação do atendimento, principalmente nas áreas mais carentes do município, como primeiro passo para melhorar a posição de Magé no ranking do IDH no Estado. Não será uma tarefa fácil, pois o candidato, ao somar apoios, assumiu compromissos com os grupos políticos que o apoiaram, mas, se pretende disputar com chances a reeleição em 2012, tem que adiar os compromissos “partidários" e partir para uma faxina em regra na Prefeitura de Magé, mudando parâmetros de funcionamento da máquina administrativa, que até aqui seguia cegamente as ordens do “dono" de plantão.
Afinal, Magé já viveu duas eras de horrores e merece, pelo menos, uma trégua para se recompor e voltar a ser uma cidade tranqüila, progressista e acolhedora, como era até os anos 60 do Século passado. E o povo de Magé fez por merecê-lo ao enfrentar os esbirros do pseudo “dono" de Magé!


