Pesquisa feita pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) mostra que 30% da indústria nacional de todos os segmentos consideram que a eventual fusão entre os grupos Pão de Açúcar e Carrefour vai ter impacto negativo sobre o mercado. O resultado da pesquisa já mostra um impacto muito grande na cadeia produtiva, disse o presidente da Firjan, Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, no dia 1º. Segundo ele, os consumidores também sairão perdendo. “Vai diminuir a opção de compras. O vendedor e produtor de mercadorias para supermercados serão prejudicados. Na outra ponta, o consumidor também será prejudicado".
Para Gouvêa Vieira, o argumento de que a fusão ampliará as exportações do Brasil não faz sentido. “Senão, essas empresas já estariam exportando. E não há razão para exportar apenas porque uma empresa brasileira terá 11% do capital de uma empresa estrangeira". O presidente da Firjan admite que ocorra concentração econômica na indústria, com objetivo de ganhos em termos de competitividade. “No comércio, é exatamente o inverso. No comércio, quanto mais pulverizado, melhor."
Órgãos de defesa do consumidor também se manifestam
A eventual fusão precisa ser muito bem definida para que os consumidores não sofram prejuízos, segundo a Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste). “Principalmente quando você está falando de um mesmo segmento, porque está tendo aí um grande percentual de concentração", disse à Agência Brasil a coordenadora institucional do Proteste, Maria Inês Dolci. Ela citou como exemplo a fusão entre os frigoríficos Sadia e Perdigão, do setor de alimentos. “Quando você tem uma concentração grande e redução de mercado, há menos opções para o consumidor e nem sempre o preço é benéfico", acrescentou Maria Inês. Segundo ele, a redução da concorrência torna o consumidor, às vezes, refém das empresas que têm um ganho grande em termos de escala, isto é, têm um poder de compra melhor e nem sempre repassam os benefícios aos clientes. Maria Inês Dolci mostrou preocupação com a possibilidade de uma diminuição da concorrência resultar em alteração de preços que não beneficie o consumidor. “Sem contar que ele não vai ter qualquer opção ou forma de escolher no mercado e de trazer concorrência para aquele setor, para ter melhoria na qualidade, investimentos em tecnologia. Esse é o ponto que preocupa a Proteste."
O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) também manifestou temor com relação à elevação dos preços. Segundo o gerente de Informação do Idec, Carlos Thadeu de Oliveira, "a concentração no varejo pode levar a uma elevação dos preços, já que diminui a concorrência e as margens de negociação entre fabricantes e comércio ficam mais estreitas". Na avaliação do professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ), Frederico Rocha, a fusão entre as redes supermercadistas Pão de Açúcar e Carrefour “implica uma concentração de mercado substantiva". Segundo ele, o primeiro problema que a fusão pode trazer é o aumento dos preços, “porque as empresas ganham maior poder de monopólio". Essa deve ser, enfatizou, a preocupação principal das autoridades da área de defesa da concorrência. Para ele, essa concentração pode significar a redução de capacidade produtiva no Brasil. “Acho que vai reduzir o número de lojas e, por isso, pode haver impactos negativos sobre o emprego".
Discussão chega ao Senado
A oposição no Senado criticou a participação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no processo de fusão das redes de supermercado Carrefour e Pão de Açúcar. A base do governo considera normal a operação e disse que ele poderá contribuir para tornar o Pão de Açúcar uma empresa internacional. Para o líder do PSDB, senador Álvaro Dias (PR), a política que vem orientando as ações do banco desvirtua a função social para a qual ele foi criado. “Achamos um absurdo. É preciso que pelo menos retirem o S do BNDES. Essa orientação na aplicação dos recursos exclui a hipótese de um banco social. O que há é um banco privilegiando megaempresários no país com recursos públicos", disse Dias.
O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), defendeu participação do banco no negócio. Segundo ele, essa é uma operação comum de mercado na qual o BNDES entrará como sócio. “É uma operação de mercado, sem recursos públicos, sem recursos subsidiados. O BNDES seria sócio dessa empresa com objetivo de lucro."
Em comunicado divulgado no último dia 28, o BNDES confirmou que começou a analisar o pedido de financiamento para internacionalização do Grupo Pão de Açúcar. A operação de internacionalização, no valor de até 2 bilhões de euros, permitirá ao grupo assumir posição estratégica no supermercado Carrefour, considerado um dos maiores varejistas mundiais. Segundo o BNDES, a transação poderá abrir “caminho para maior inserção de produtos brasileiros no mercado internacional".


