Enquanto os brasileiros começam a se preocupar em separar o lixo seco para reciclagem, um ativista alemão chama a atenção para o lixo orgânico. Composto por restos de comida, cascas de frutas e de legumes, os rejeitos podem se transformar em adubo antes mesmo de serem descartados, mas com ajuda de minhocas, explica o paisagista Manfred Bert.
Localizado em um dos lugares de maior movimento na Cúpula dos Povos, evento paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), Bert apresenta suas minhocas e explica a estratégia para fazer adubo em casa. “Basta pegar duas caixas de madeira que sobram nas feiras, forrar com uma tela de mosquiteiro, colocar terra, lixo orgânico e as minhocas."
Quando a caixa estiver cheia, a recomendação é colocar uma nova caixa em cima e repetir o procedimento. Assim, assegura, as minhocas vão passar de uma caixa para a outra em busca de alimento fresco e acelerar a produção de adubo. Esse, por sua vez, pode ser vendido ou reaproveitado nas plantas de casa ou pelo próprio condomínio, sugere o ecologista.
O Brasil é um dos maiores recicladores de latinhas de refrigerante e cerveja, o que resulta na economia do uso do alumínio, matéria prima não renovável pela natureza, além da redução do custo de produção, com forte influência da energia elétrica, cujo preço tem influência no preço final do alumínio industrializado. O fenômeno se repete com as embalagens de vidro, mas não com o lixo representado pelo plástico, principalmente as garrafas pet, que invadem os rios, lagoas e até a baía da Guanabara.
Com a valorização das latinhas, o resto do lixo perde em valor e em cuidados na hora de recolhê-lo, principalmente o lixo orgânico. E isso é motivo para as críticas de Manfred Bert. “Todo mundo pensa no lixo inorgânico para reciclar, como latinhas e vidro, tudo o que dá dinheiro. Mas ninguém quer mexer no lixo orgânico por considerar nojento, sujo, com mosca, mau cheiro. Mas não é nada disso", desmistifica. “Na verdade, 70% do nosso lixo são limpos, são orgânicos", completa o alemão, que usa uma camiseta com os dizeres Minhoca ao Alcance de Todos.
Há 27 anos no Brasil, o “vermicompostador", como também se chama, desenvolveu a técnica. Bert garante que, se bem feita, não exala mau cheiro e nem uma produção incontrolável de moscas e vermes. “As minhocas se autoregulam. Cometem suicídio coletivo para expulsar o excedente. Depois, é só retirá-las e iniciar uma nova caixa", dá a dica. Para quem se interessou em começar a fazer o adubo orgânico em casa, além de preparar as caixas de frutas também é preciso comprar as minhocas, que o paisagista sugere que seja de um criador especializado.
Vamos imaginar como seria hoje o bairro do Jardim Gramacho se a recomendação de Bert fosse aplicada ao lixão que a Comlurb utilizou por 34 anos a pouco mais de um quilômetro da BR-040 e sobre o manguezal que circunda a baía da Guanabara. Ao invés de encher os bolsos de meia dúzia de empresários, que exploravam a mão de obra de catadores [sem qualquer garantia trabalhista e preocupação com a saúde desses verdadeiros escravos] as 9 mil toneladas de lixo diárias que a Comlurb ali depositava estaria ajudando a agricultura do Estado do Rio, fornecendo um adubo de qualidade e baixo custo. Assim, ao invés de uma "esmola" de R$ 14 mil reais paga a pouco mais de 1.700 catadores remanescentes, a Comlurb garantiria o emprego permanente para milhares de "minhoqueiros", que cuidariam dos caixotes-viveiros e da embalagem, armazenamento e até na comercialização do adubo orgânico ali produzido.
A situação do Jardim Gramacho pós lixão é irrecuperável, mas ainda há tempo para salvar os novos lixões que surgem pelo Estado, como o de Nova Iguaçu e Seropédica. Afinal, sai mais barato comprar uma tonelada de minhocas do que implantar um suntuoso aterro sanitário, como o de Seropédica, um bom negócio para empresas que "vendem" novas tecnologias sem garantia da qualidade do produto que venha a ser produzido, inclusive em relação ao meio ambiente.


