Na "guerra santa" deflagrada pelo Governo contra a taxa de juros cobrada pelos bancos - o melhor negócio do Brasil excluídos os contratos da Delta e o jogo do bicho - a Presidente Dilma Rousseff resolveu enfrentar a fúria da Febraban e mandou um recado aos banqueiros: o Governo vai baixar os juros nos bancos oficiais. A queda de quase 15% no lucro do Banco do Brasil no primeiro quadrimestre do ano já é um reflexo do efeito cascata da redução do spread, uma taxa cobrada pelos bancos a pretexto de cobrir possíveis prejuízos com a inadimplência. No Banco do Brasil, por exemplo, a previsão para cobrir possíveis calotes de clientes (valores deduzidos do lucro bruto, antes do pagamento do imposto de renda), foi de R$ 3,576 bilhões no período, um crescimento de 36% em um ano e o maior nível desde pelo menos o quarto trimestre de 2009, enquanto o índice de inadimplência da carteira, medido pelo saldo de empréstimos vencidos há mais de 90 dias, foi de 2,2%, ligeiramente maior ante os 2,1% em igual etapa de 2011. Essa parcela do lucro reservada para cobrir futuros prejuízos é uma obrigação legal das empresas para que seus balanços sejam considerados sustentáveis. Seria uma espécie de poupança para o caso de algum cliente não pagar as suas dívidas.
A taxa Selic, que o governo usa para remunerar os tomadores dos títulos emitidos pelo próprio governo, comprados pelos bancos e, depois, revendidos com margem de lucro para os investidores privados, está em torno dos 9% ao ano, enquanto os juros cobrados nos cartões de créditos estão em torno de 16% ao mês. Diante da queda do lucro do rentismo - emprestar ao Governo, ao invés de financiar a produção – os bancos estão restringindo o crédito. No caso dos automóveis, por exemplo, onde o consumidor só se preocupa com o tamanho das prestações, a cada 2 clientes com fichas cadastrais invejáveis que pretendem adquirir um veículo de valor até R$ 40 mil, os bancos só concedem o crédito a um desses clientes, isto é, está sendo negado crédito a metade dos clientes que procuram as agências de automóveis.
Ora, o produto "vendido" por um banco é o empréstimo-financiamento. Se a instituição bancária se nega a emprestar ao cidadão comum ou às empresas que precisam de crédito, para onde está indo esse dinheiro à disposição dos bancos? Até o momento, o Governo ainda não atentou para a poderosa arma colocada à disposição do consumidor, pessoa física ou jurídica: a portabilidade. Se o cidadão deve ao banco X e encontra taxas menores em outro banco, ele pode simplesmente "vender" a sua dívida para o banco que lhe cobra uma taxa menor E os bancos são useiros e vezeiros em usar a portabilidade a seu favor, como fazia o Banco PanAmericano, que vendia a sua carteira de empréstimos para outros bancos, recebia o valor combinado, mas mantinha no seu cadastro todos os clientes devedores. Assim, no balanço o valor da carteira era duplicado, pois constata o valor da venda como receita e o valor da carteira como Ativo. Foi esse truque sujo da direção que levou o PanAmericano para o buraco. Não fosse o prestígio do empresário Silvio Santos e as suas ligações com o Governo e o PanAmericano seria liquidado pelo Banco Central, deixando um rombo de mais de R$ 4 bilhões.
Se o governo fizer uma campanha em torno da portabilidade do crédito, levando o consumidor a trocar de banco e pagar menor taxa de juros, a Febraban vai afinar e os banqueiros – que levam os amigos para jantar num luxuoso restaurante em Paris, com tudo pago, inclusive o uso do jatinho do banco - terão de passar a fazer o que deveriam há muito tempo: emprestar dinheiro para o consumidor comprar mais e acelerar o desenvolvimento do País.
O Brasil não pode ser o paraíso fiscal dos rentistas, nem dos banqueiros.


