Mais uma tragédia no Rio de Janeiro demonstra que as chamadas autoridades competentes, no chavão jornalístico, podem ter tudo, mesmo competência. Bandidos disfarçados de camelôs vendem produtos piratas a céu aberto, empresas de reciclagem de lixo funcionam sem licença, conjuntos residenciais, hipermercados e até fábricas são implantados sobre lixões (e ganham até nomes típicos - Favela do Lixão), traficantes de animais silvestres comercializam esses produtos nas feiras livres. Um traço comum nessas atividades - elas são proibidas por Lei.
Depois do desmoronamento do Morro do Bumba, em Niterói, de encostas em Angra dos Reis e na Região Serrana, nada mudou na atuação das autoridades encarregadas de fiscalizar o cumprimento das leis. Prefeituras e Governo do Estado, quanto a tragédia acontece, prometem duas coisas: vão apurar responsabilidades para punir os culpados (Doela a quem doela!) e amparar as vítimas. Quem perdeu tudo com as chuvas dos últimos anos, continua vivendo perigosamente nos mesmo locais porque as casas prometidas não saíram do papel, apesar da propaganda em rádios, jornais e TVs e dos milhões de reais que saíram do Tesouro em direção a essas regiões.
A explosão em um restaurante no Centro do Rio - com as vítimas sendo arremessadas a 50 metros de distância – ao que tudo indica, foi conseqüência do escapamento de GLP armazenado na cozinha do restaurante. O proprietário do estabelecimento utilizava garrafas de 45 km de gás porque não podia, por lei, receber gás engarrafado, pois não cumprira exigências da Prefeitura carioca para adequar o estabelecimento às normas de segurança exigidas por Lei.
Isso não impediu que o restaurante funcionasse por quase dois anos. Nesse período, nem os fiscais da Prefeitura, muito menos do Corpo de Bombeiros - que cobra de todos os fluminenses uma absurda Taxa de Incêndio - tomaram qualquer providência preventiva sob o argumento de que é humanamente impossível fiscalizar milhares de estabelecimentos comerciais, muito menos as residências. Em outras palavras: as autoridades competentes servem apenas para dar explicações para o inexplicável e declarações bombásticas depois de cada tragédia.
Enquanto o governador manda prender bombeiros que, nos dias de folga, protestam contra os baixos salários, os Secretários de Obras e de Fazenda, que licenciam as atividades empresariais no Estado e nos município, continuam em seus cargos, sem que prefeitos e governador expliquem a contradição de manter auxiliares comprovadamente incompetentes!
Quantos Morros do Bumba precisam desmoronar e restaurantes explodirem para que nossos governantes resolvam assumir a culpa pelos fatos e pedirem demissão ou renunciarem aos seus pomposos e caríssimos cargos, exatamente por desleixo, como na tragédia do bondinho de Santa Tereza, como publicamente reconheceu o governador Sérgio Cabral. Apesar dessa inacreditável e incontestável conclusão, o governador manteve o deputado Julio Lopes no cargo de Secretário de Transportes do estado.
Até quando vamos continuar mudos e quedos diante de tanta incompetência, que custam vidas e destroem patrimônios construídos ao longo de décadas? Se o voto é uma arma, está na hora de repensarmos o que queremos para o nosso futuro: um favorzinho aqui, uma nomeação ali, ou um governo que olhe o cidadão-contribuinte-eleitor nos olhos e diga o que pretende fazer com os nossos impostos?


