Fraudes ligadas à Copa do Mundo quase dobram e acendem alerta para o Mundial de 2026
- jun 09, 2026
Com o avanço da Inteligência Artificial e a consolidação do Pix, golpes digitais atingem 34% dos internautas e reclamações no Procon-SP saltam 800% no último trimestre.
O início da Copa do Mundo de 2026 nesta semana traz consigo um alerta preocupante para os torcedores e consumidores brasileiros. As tentativas de fraude relacionadas ao futebol e ao maior evento esportivo do planeta avançaram de forma significativa no ciclo que antecede o Mundial. Um levantamento realizado pela NordVPN, provedor de serviços de rede privada virtual, aponta que 34% dos brasileiros que utilizam a internet relataram contato com golpes ligados ao tema entre 2024 e 2025. O número representa quase o dobro dos 19% registrados no período pré-Copa de 2022.
O avanço expressivo ocorre em um cenário de maior sofisticação dos ataques digitais, impulsionados principalmente pelo uso de inteligência artificial (IA) generativa, que reduziu drasticamente o tempo necessário para a criação de páginas falsas e armadilhas virtuais. O reflexo prático desse boom criminoso já é sentido nos órgãos de defesa do consumidor: nos últimos três meses, as reclamações no Procon-SP relacionadas à Copa do Mundo multiplicaram-se por oito.
O raio-x do crescimento das fraudes no Brasil
- 34% dos internautas tiveram contato com golpes ligados ao futebol entre 2024 e 2025;
- 19% relataram situações semelhantes no ciclo do Mundial de 2022;
- 238 reclamações foram registradas pelo Procon-SP entre março e maio de 2026;
- Evolução das queixas: o órgão saltou de 19 registros em março para 63 em abril, explodindo para 156 ocorrências em maio.
Inteligência Artificial acelera a velocidade e a personalização dos golpes
A principal diferença entre os cenários das Copas de 2022 e 2026 está na velocidade de execução das fraudes. Há quatro anos, os cibercriminosos demandavam tempo considerável e conhecimento técnico avançado para estruturar sites fraudulentos e campanhas de phishing (pescaria de dados). Agora, com ferramentas de inteligência artificial amplamente disponíveis, esse processo passou a ser realizado em poucas horas.
“Hoje, com ferramentas de inteligência artificial generativa acessíveis a qualquer pessoa, esse ciclo caiu para poucas horas”, afirma Marcelo Souza, vice-presidente de Produto da Certta, empresa de verificação inteligente que unifica soluções antifraude em uma única plataforma.
Além da rapidez, os golpes se tornaram altamente personalizados. Em vez de disparar campanhas massificadas e genéricas, as quadrilhas agora utilizam dados vazados de bases públicas e privadas — como Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), e-mail e histórico de compras — para criar abordagens direcionadas e com alto poder de convencimento sobre as vítimas.
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Pix assume o centro do ecossistema de fraudes digitais
Outra transformação profunda entre as duas edições do torneio ocorreu nos meios de pagamento. Se em 2022 os cartões de crédito e os boletos bancários ainda predominavam nas transações comerciais cotidianas, em 2026 o Pix passou a ocupar a posição central nas fraudes. Segundo Marcelo Souza, a instantaneidade das transferências via Banco Central dificulta drasticamente a recuperação dos recursos após a concretização do prejuízo.
“O Pix também muda a equação de forma bastante concreta. A instantaneidade e a irreversibilidade da transação eliminam a janela de reação”, destaca o executivo.
Para além da facilidade de desvio financeiro, os criminosos também passaram a criar marcas fictícias que se apresentam como parceiras oficiais do evento e a infiltrar-se em grupos legítimos de colecionadores e torcedores para conquistar a confiança do público antes de aplicar o golpe.
Redes sociais são a principal porta de entrada
De acordo com o levantamento da NordVPN, as redes sociais seguem como o principal canal utilizado pelos golpistas para atrair novas vítimas no ambiente digital. O ranking das plataformas com maior incidência de fraudes relacionadas à Copa destaca:
- Instagram: 51% dos casos;
- WhatsApp: 48% dos casos;
- Facebook: 35% dos casos;
- TikTok: 26% dos casos.
Entre as modalidades mais frequentes identificadas no ecossistema digital estão as apostas ilegais, a venda de ingressos falsificados e a comercialização de produtos piratas se passando por oficiais.
Mercado de figurinhas aciona o alerta no Procon-SP
As fraudes relacionadas à Copa do Mundo não se limitam apenas ao ambiente estritamente digital das redes, mas também impactam o mercado real e físico de consumo, conforme constatado pelo Procon-SP. As principais ocorrências registradas no órgão paulista de março a maio deste ano foram:
- 115 casos de não entrega ou atraso de produtos;
- 34 casos de oferta não cumprida ou venda enganosa;
- 24 casos de produtos incompletos ou diferentes do anunciado.
As reclamações específicas sobre figurinhas e álbuns da Copa chamam a atenção por uma escalada meteórica: saltaram de zero registros em março para 34 em abril, atingindo 109 ocorrências em maio. As denúncias estão fortemente concentradas em anúncios enganosos e falsificações grosseiras mapeadas dentro de marketplaces e grupos de mensagens.
Crise de confiança na era dos materiais manipulados
Para o vice-presidente da Certta, a popularização em massa da inteligência artificial gerou um novo desafio sistêmico para consumidores e marcas: a extrema dificuldade em distinguir o que é um conteúdo autêntico de um material criminosamente manipulado.
“Imagens, vídeos e documentos já não são sinônimo de verdade na internet, isso gera uma crise de confiança digital”, pontua Marcelo Souza. Para ele, a resposta do mercado corporativo precisa passar, obrigatoriamente, pela adoção de sistemas mais avançados de autenticação e monitoramento de comportamento dos usuários.
“Se os cibercriminosos alteram suas táticas em questão de horas, por que muitas companhias ainda levam semanas ou meses para atualizar regras de prevenção?”, questiona o especialista. Souza conclui que a proteção do ecossistema dependerá cada vez mais da verificação minuciosa de identidade e da capacidade tecnológica de detectar desvios em tempo real: “A confiança real se constói na camada de identidade, no reconhecimento do usuário e na capacidade de reagir de forma proporcional quando algo foge do padrão”.
Saiba como se proteger: Recomendações dos especialistas
Para evitar prejuízos durante a Copa do Mundo de 2026, o Procon-SP e a Certta estruturaram um guia com orientações fundamentais para o consumidor:
Guia de Cuidados Gerais (Procon-SP)
- Pesquise detidamente a reputação da loja ou do vendedor antes de fechar qualquer negócio;
- Desconfie de ofertas milagrosas com preços excessivamente abaixo da média de mercado;
- Verifique as informações institucionais obrigatórias, como o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), endereço físico e canais oficiais de atendimento;
- Guie-se por provas: guarde prints de anúncios, comprovantes de pagamento e históricos de conversas realizadas;
- Confira as letras miúdas: confira sempre o prazo de entrega, as políticas de troca e as condições reais da oferta;
- No mercado de colecionáveis: ao comprar figurinhas e álbuns, verifique se o item é oficial e se há identificação clara do fornecedor;
- Registre queixas: caso seja lesado, registre imediatamente uma reclamação no órgão de proteção ao consumidor mais próximo.
Estratégias Digitais Avançadas (Certta)
- Ignore os gatilhos de "urgência": desconfie de cronômetros regressivos e pressões psicológicas para fechar a compra rápido;
- Cruze os dados do CNPJ: cheque se o CNPJ exibido no rodapé do site condiz com o setor de varejo. Evite fechar compras onde o "CNPJ fantasma" pertence a setores de consultoria ou construção civil;
- Analise o tempo de vida do site: verifique a data de criação do domínio (utilizando ferramentas gratuitas de consulta WHOIS). Sites criados há menos de 30 dias são fortíssimos indícios de páginas falsas feitas para a Copa;
- Evite exclusividade de Pix: fuja de sites e e-commerces que aceitam apenas o Pix como pagamento. Plataformas idôneas oferecem múltiplas formas de pagamento (como cartão de crédito e boleto bancário), permitindo que você realize a contestação do valor junto ao banco em caso de fraude. (com informações da Agência Brasil)
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